Abril 25, 2009

Estão-nos mentindo sobre os piratas


5/1/2009, Johann Hari: The Independent, UK

Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa - e navios de mais 12 nações, dos EUA à China - navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilãos de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos 'ocidentais' estão rotulando como "uma das maiores ameaças de nosso tempo" têm uma história extraordinária a contar - e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.
Os piratas jamais foram exatamente o que pensamos que fossem. Na "era de ouro dos piratas" - de 1650 a 1730 - o governo b ritânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Por quê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villains Of All Nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito interessantes.
Se você fosse mercador ou marinheiro empregado nos navios mercantes naqueles dias se vivesse nas docas do East End de Londres, se fosse jovem e vivesse faminto-, você fatalmente acabaria embarcado num inferno flutuante, de grandes velas. Teria de trabalhar sem descanso, sempre faminto e sem dormir. E, se se rebelasse, lá estavam o todo-poderoso comandante e seu chicote [ing. the Cat O' Nine Tails, lit. "o Gato de nove rabos"]. Se você insistisse, era a prancha e os tubarões. E ao final de meses ou anos dessa vida, seu salário quase sempre lhe era roubado.
Os piratas foram os primeiros que se rebelaram contra esse mundo. Amotinavam-se nos navios e acabaram por criar um modo diferente de trabalhar nos mares do mundo. Com os motins, conseguiam apropriar-se dos navios; depois, os piratas elegiam seus capitães e comandantes, e todas as decisões eram tomadas coletivamente; e aboliram a tortura. Os butins eram partilhados entre todos, solução que, nas palavras de Rediker, foi "um dos planos mais igualitários para distribuição de recursos que havia em todo o mundo, no século 18 ".
Acolhiam a bordo, como iguais, muitos escravos africanos foragidos. Os piratas mostraram "muito claramente- e muito subversivamente- que os navios não precisavam ser comandados com opressão e brutalidade, como fazia a Marinha Real Inglesa." Por isso eram vistos como heróis românticos, embora sempre fossem ladrões improdutivo s.
As palavras de um pirata cuja voz perde-se no tempo, um jovem inglês chamado William Scott, volta a ecoar hoje, nessa pirataria new age que está em todas as televisões e jornais do planeta. Pouco antes de ser enforcado em Charleston, Carolina do Sul, Scott disse: "O que fiz, fiz para não morrer. Não encontrei outra saída, além da pirataria, para sobreviver".
O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde jogar todo o lixo nuclear do planeta.
Exatamente isso: lixo atômico. Nem bem o governo desfez-se (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contêineres e barris enormes. A população litorânea c omeçou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebês malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.
Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: "Alguém está jogando lixo atômico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos." Parte do que se pode rastrear leva diretamente a hospitais e indústrias européias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de "descarregá-los" e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse 'negócio', ele suspirou: "Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação, nem prevenção."
Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, a tacando uma de suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus estoques naturais de pescado pela superexploração - e, agora, está superexplorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de atum, camarão e lagosta; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.
Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 quilômetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: "Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália."
Esse é o contexto do qual nasceram os "piratas" somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos, como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.
Os somalianos chamam-se "Guarda Costeira Voluntária da Somália". A maioria dos somalianos os conhecem sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em http://wardheernews.com/Articles_09/April/13_armada_not_solution_muuse.html : "The Armada is not a solution".] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos "aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional".
Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gângsteres misturados nessa luta - por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos líderes dos piratas, Sugule Ali disse: "Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam nosso peixe." William Scott entenderia perfeitamente.
Por que os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pe squeiros europeus (dentre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram-se no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo... imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.
A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século 4º AC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou "o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares." O pirata riu e respondeu: "O mesmo que você, fazendo-se de senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado de ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador." Hoje, outra vez, a grande frota européia lança-se ao mar, rumo à Somália - mas... quem é o ladrão?

http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/johann-hari/johann-hari-you-are-being-lied-to-about-pirates-1225817.html


Enviado por um Camarada.

Abril 06, 2009

Alguma coisa acontece no meu coração

Um dia eu escrevi um roteiro e resolvi filmá-lo com a ajuda de vários amigos que toparam acordar mais cedo em um domingo. Fico muito feliz em saber que este mesmo curta "1468973512: O Espelho de um momento" foi selecionado para a Mostra Competitiva do Festival Cinema do Coração, que acontecerá em São Paulo, entre os dias 13 e 16 de abril.

A exibição será no dia 15, a partir das 21h30, no Cine Reserva Cultural (Av. Paulista, 900), e a programação completa do festival pode ser acessada através do link http://www.planetatela.com.br/festival/programacao.html


1468973512: O Espelho de um Momento Direção: João Felipe Freitas Sinopse: O poeta Paul Éluard morreu em 1952, vítima de uma doença cardíaca. Esse foi seu último delírio.



Ficha Técnica Direção - João Felipe Freitas
Fotografia - Guga Millet
Som - Benhur Machado
Assistência de Som - Edil Andrade
Produção e Sill - Paula Lagoeiro
Produção Executiva - Tiago Campany

Elenco
Homem de Pijama - Xande Alves
Homem de Terno - Rafael Maia


15 de abril, quarta-feira - 21:30 horas

MOSTRA COMPETITIVA - I FESTIVAL CINEMA DO CORAÇÃO

COR
Adriana Barata
17 minutos
Minas Gerais

Suspenso
Felipe Sabugosa
8 minutos
Rio de Janeiro

De Peito Aberto
Nair Farias
1 minuto
Rio Grande do Sul

Pelo Ouvido
Joaquim Haickel
18 minutos
Maranhão

1468973512: O Espelho de um Momento
João Felipe Freitas
5 minutos
Rio de Janeiro

Quando o Universo Conspira
Caio Bortolotti
15 minutos
Rio de Janeiro

X-Coração
Lisandro Santos
12 minutos
Rio Grande do Sul

Fevereiro 15, 2008

Um post para maio


Era para ser um ano comum. Ninguém poderia prever que seria diferente. Mas 1968 começou com uma certa agitação no ar. Já tínhamos Sartre, Levi-Strauss, Foucault, Lacan e Barthes sendo discutidos nas universidades. Num instante, bum!, o furacão juvenil virou todo o país de pernas pro ar. Aqueles jovens queriam o que afinal? Na época ninguém sabia ao certo. Estavam descontentes e isso já era o bastante. Nos muros o alerta: Cours camarade, le vieux monde est derrière toi!
Se frustração e faltas de perspectivas podem motivar novos sessenta e oitos, teremos mais um ano conturbado. No filme Le pornographe (O pornógrafo, 2001) de Bertrand Bonello, os personagens acreditam que havia certo romantismo quando as pessoas iam às ruas em 68. A imaginação podia chegar ao poder. Os jovens recusavam a sociedade tal como era, os velhos símbolos, o trabalho. Hoje, protestamos pelo contrário: para trabalhar, ser reconhecido pela sociedade. É uma ironia terrível.
O filme não é sobre maio de 68. Jacques Laurent, interpretado pelo genial Jean-Pierre Léaud (Os Incompreendidos, Beijos Roubados, Noite Americana e mais uma caralhada), é um antigo diretor de filmes pornográficos dos anos 60 e 70. Por questões financeiras, retorna aos sets de filmagem e percebe, apesar de não compreender, como a indústria pornô mudou. Com problemas de relacionamento com seu filho, o velho pornógrafo ainda sustenta utopias bambas e parece não mais entender o mundo. O conflito de gerações é mais do que mero recurso dramático; é um comentário histórico. Então, de certa forma, o filme relaciona o nosso tempo com a velha geração de 1968? Bem, eu não vou me contradizer na frente de todo mundo.

A pornstar Ovidie também está no filme.
Fazendo o quê?
Você sabe.

Setembro 08, 2007

A tristeza durará para sempre


Recém saído do manicômio de Saint-Rémy, Vincent Van Gogh chegou em Auvers-sur-Oise, um lugarejo a 35 km de Paris, em 20 de maio de 1890. Ali permaneceu por 70 dias, e pintou mais de 70 quadros, iniciando assim sua última fase, ou melhor, seu "epílogo".
Em carta para sua irma Elizabeth, Van Gogh esplicava que trabalhava tanto e tao depressa para expressar o passo desesperadamente rápido das coisas na vida moderna.
No final de julho, Vincent disparou um tiro do revólver contra si. Theo, seu irmao, tentava aplacar a dor de Vincent. Ao seu lado até o final, dizia que arranjaria um jeito de curá-lo e tudo ficaria bem. Van Gogh deu com os ombros e disse: A tristeza durará para sempre. Dois dias depois, em 29 de julho de 1890, Vincent fechou os olhos.

Fevereiro 13, 2007

João Helio Fernandes





Hoje vou escrever sobre João Helio. O nome mais comentado das sangrentas páginas de Jornais. Nome próprio que atualmente significa Justiça, e representa uma comoção de Parlamentares de toda a sociedade brasileira, principalmente carioca. O Rio de Janeiro que continua lindo é a saída mais rápida para o inferno: uma criança de seis anos morta de maneira tenebrosa em troca de um carro. Não vale a pena perguntar aonde estão o valores. Essa pergunta está calada há muito tempo.
Os cinco indivíduos acusados estão suspensos, não ainda sob julgamento, mas de castigo não podendo voltar para o Playground , sabemos até quando: logo. Cinco animais que arrancaram a vida de uma criança que ainda nem sequer tinha planos futuros. Uma criança que não vai mais correr atrás de uma bola, fazer faculdade, ter sua primeira namorada, filhos. Uma criança que tinha uma mãe, um pai, uma irmã, que hoje sobrevivem de dor. A dor de um filho arrancado pelo acelerador, a dor que sentiu o filho durante quatro quarteirões, a dor de jogar fora o material escolar deste ano. E a pior dor: A dor da morte sem causa e efeito.
O Congresso Nacional se comoveu e hoje, alguns Parlamentares, que ainda não programaram respectivos carnavais discutem a mudança e revisão de leis, como por exemplo aumentar a maioridade penal de 18 para 16 anos. Menores infratores, como são chamados com eufemismo estes animais se obtiverem um bom comportamento na Instituiçao que for, saem dela cumprindo apenas 1/6 da pena. Redução legal para voltar `a atividade, já que antes o prazo era de 1/3 . Pois, 70% desses “ jovens infratores” voltam para a criminalidade. Esses “meninos” reclamam que a postura continua a mesma, pois são confinados numa espécie de prisão e não em uma Instituição de Reabilitação. Quer dizer, depois de matar, torturar e roubar eles querem ter aulas de dança e capoeira. Se o bom comportamento reduz a pena, aproveitemos para sempre mantê-los como detentos.
O Senado não passa de um bando de espectadores assistindo a banda passar. Não precisamos de mais leis, precisamos de uma mudança drástica na política de Segurança Nacional. Precisamos de Polícia, e não de bandido de uniforme. Precisamos que estes merdas tenham medo da repressão antes de cometer o crime. O Congresso está com medo de tomar decisões no calor da emoção. Esperemos que a emoção voe longe e que algo aconteça antes que o sangue parar de correr no coração de mais um João.
Enfim, foi só um desabafo. Sabemos que infelizmente, qualquer apelo é em vão. Afinal, João Helio já participou da novela das 8 e já ganhou nome de Praça.
Certamente, atitudes que resolvem bastante a dor de ser carioca.
Até o próximo João.

Fevereiro 08, 2007

On the corner

Definitivamente, o amor não basta.

Há de se ter planos
Há de se ter entrega
Há de se ter paciência
Há de se ter compromisso
Há de se ter consideração
Há de se ter atitude
Há de se ter coragem
Há de se ter certeza
Há de se ter companheirismo
Há de se ter transparência
Há de se ter disponibilidade
Há de se ter concessões
Há de se ter segurança
Há de se ter lealdade
Há de se ter saudade
Há de se ter ciúme
Há de se ter admiração
Há de se ter intimidade
Há de se ter diálogo
Há de se ter respeito
Há de se ter afinidade
Há de se ter cumplicidade
Há de se ter escolha

Há de se ter qualquer coisa além de um simples “te amo”. Este, não basta.



Ame
Paulinho da Viola e Elton Medeiros

Ame
Seja como for
Sem medo de sofrer
Pintou desilusão
Não tenha medo não
O tempo poderá lhe dizer
Que tudo
Traz alguma dor
E o bem de revelar
Que tal felicidade
Sempre tão fugaz
A gente tem que conquistar

Por que se negar?
Com tanto querer?
Por que não se dar
Por quê?
Por que recusar
A luz em você
Deixar pra depois
Chorar... pra quê?

Obrigada a Marcinha pela letra da música.
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TEXTO DESENGAVETADO POR FLAVIA BOABAID